PLANTÃO / BANCO DO BRASIL

Aldemir Bendine, novo presidente da Petrobras, está na mira do TCU
09/02/2015 às 11:09
Correio Brasiliense
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Aldemir Bendine assume hoje, oficialmente, a presidência da Petrobras com mais uma investigação pesando sobre seus ombros. O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu dois procedimentos para apurar empréstimos concedidos pelo Banco do Brasil, do qual o executivo foi presidente, para a Torke Empreendimentos, empresa da apresentadora de tevê Val Marchiori. Na última sexta-feira, o Ministério Público Federal, que também investiga a operação, pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito sobre o assunto.
A onda de processos contra Bendine só aumenta o descrédito dele entre os investidores, que reagiram muito mal à decisão da presidente Dilma Rousseff de nomeá-lo para o comando da Petrobras, em substituição a Graça Foster. Somente na sexta-feira, quando houve a confirmação da troca, a estatal perdeu R$ 8,5 bilhões em valor nas bolsas. O mercado viu a escolha da chefe do Executivo como política num momento em que a petroleira precisa de uma diretoria técnica para sair do atoleiro da corrupção, que sugou R$ 88,6 bilhões do patrimônio da companhia.
Segundo assessores de Dilma, o mercado exagerou na reação. No Palácio do Planalto, a visão é de que os investidores terão de "engolir" Bendine, pois não haverá recuo na decisão. A amigos, o novo presidente da Petrobras diz estar tranquilo. Acredita que, com o tempo, provará ser capacitado para tocar a maior empresa do país. Mesmo dentro do governo, poucos acreditam, uma vez que os órgãos de fiscalização não darão trégua no caso Val Marchiori.
Pelas investigações do TCU e do Ministério, o Banco do Brasil contrariou normas internas e ajudou a apresentadora a conseguir um empréstimo subsidiado no fim de 2013. Marchiori é amiga muito próxima do ex-presidente do BB. Documentos do banco mostram que a instituição aprovou, num primeiro momento, limite de crédito de R$ 3 milhões para a apresentadora. Depois, a instruiu a elaborar uma série de documentos sem os quais não teria acesso a um repasse aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Bendine alega que tudo está dentro das regras, mas o TCU e o MP veem irregularidades.
Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), as investigações sobre Bendine só comprovam que a presidente Dilma errou na troca de comando da Petrobras, que ainda não divulgou o balanço auditado do terceiro trimestre de 2014. A empresa responsável por dar aval aos números, a PricewaterhouseCoopers (PwC), recusou-se assinar os demonstrativos, agravando a crise que assola a petroleira, investigada pela Operação Lava-Jato.
"A saída da diretoria da Petrobras foi intempestiva. Mostra que houve uma rebelião e que o governo perdeu o controle sobre a companhia. Está tudo uma bagunça", critica Pires. No entender dele, as ações da estatal deverão continuar em queda nesta segunda-feira, pois o descrédito em relação a Bendine só aumenta. "É um sinal de continuidade de tudo de ruim que destruiu a empresa. Nada mudou", resume. "Tudo o que a Petrobras precisava agora era de um presidente que não tivesse trabalhado no governo e que não tivesse um histórico polêmico. A empresa não precisa de mais confusão."
Trapalhadas
Na opinião de Edmar Almeida, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os mercados não darão trégua ao novo comandante da Petrobras. Cada passo, cada declaração, cada ato dele será motivo para um vaivém dos preços das ações. Em meio à desconfiança, o professor acredita que Bendine deverá priorizar a divulgação dos balanços de 2014, tanto do terceiro quanto do quarto trimestre de 2014. "O tempo e as decisões do novo presidente vão ditar para onde vai a empresa."
A falta de experiência de Bendine no setor de energia e a proximidade dele com Dilma e com Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e ainda presidente do Conselho de Administração da estatal, continuarão pesando nas avaliações. Segundo o diretor para a América Latina do Eurasia Group, João Augusto de Castro Neves, a missão de limpar a corrupção e arrumar as finanças da Petrobras será muito mais difícil para Bendine, porque ele não tem a confiança do mercado. "Não será surpresa se novos problemas surgirem com os balanços da empresa", ressalta.
Para Castro Neves, os investidores ficarão atentos se o novo presidente da Petrobras manipulará a provisão para perdas relacionadas com a corrupção. "Acreditamos que ele entregará uma demonstração financeira auditada, com as baixas contábeis relacionadas à corrupção, até junho", diz. O economista aposta que a nomeação de Bendine pode ser temporária. "Ele vai abrir o caminho para uma mudança construtiva nas operações da empresa, e, potencialmente, para um presidente com um perfil mais forte", emenda.
Empreiteiras cortam 12 mil
As construtoras investigadas pela Operação Lava-Jato já demitiram mais de 12 mil empregados desde o início do ano. Os maiores cortes foram observados na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Executivos das empresas dizem que não há mais como segurar os trabalhadores, uma vez que a Petrobras reduziu drasticamente os repasses para essas obras superfaturadas. A tendência é de as demissões continuarem nas próximas semanas. No mercado, já se fala em quebradeira em série das empreiteiras.